domingo, 10 de junho de 2012

Cada qual no seu estilo, Espanha e Itália mostram força em empate


Espanha e Itália ofertaram, nesse domingo, uma bela partida de futebol na Arena Gdansk. Mesmo se tratando de um jogo envolvendo as duas mais recentes campeãs mundiais, me atrevo a dizer que o encontro entre espanhóis e italianos superou todas as expectativas. O placar de 1a1 deve ter animado as duas equipes: a espanhola por ter mostrado força para buscar o empate pouco depois de sofrer o gol e a italiana por conseguir medir forças com a atual melhor seleção do mundo.

O jogo

Nos primeiros cinco minutos de partida, o indicador de que 83% do tempo de posse de bola pertencia aos comandados de Vicente del Bosque confirmava aquilo que já era esperado: a Espanha seria fiel ao seu estilo de jogo e buscaria o gol valorizando a manutenção da redonda sob seu domínio. Só que a seleção comandada por Cesare Prandelli conseguiu fazer em campo aquilo que é fidedigno à escola italiana: uma aplicação tática descomunal na linha de defesa e uma saída consciente para o campo de ataque. Esses ingredientes somados à qualidade técnica dos conjuntos só poderiam resultar num bom jogo de futebol, como de fato aconteceu.

A primeira finalização foi espanhola: aos oito minutos, Busquets fintou Giaccherini e passou a bola para David Silva, que chutou de fora da área e mandou por cima da meta. A Itália respondeu no minuto seguinte, com Balotelli recebendo a bola de Cassano e soltando um chute que desviou em Arbeloa antes de sair. Aos dez minutos, a Espanha descolou belo contra-ataque, mas Buffon apareceu bem para segurar a nova finalização de David Silva. Aos doze, Cassano sofreu falta de Ramos próximo da grande área. Pirlo encarregou-se da cobrança e tratou de mandar a bola no canto oposto ao da barreira e Casillas conseguiu espalmar, saltando para o lado direito.

Del Bosque surpreendeu ao trazer uma Espanha sem qualquer atacante de ofício entre os onze iniciais. Mas o uso de um time recheado de (ótimos) meio-campistas de origem proporcionou uma rotatividade da bola do mais alto nível, até porque qual a bola que não gostaria de ser conduzida por jogadores como Xavi, Iniesta, Fàbregas e Silva? Aos catorze minutos, esses dois últimos tabelaram de forma ligeira e De Rossi conseguiu bloquear o chute de David Silva.

A Espanha é tão ligeira na troca de passes que às vezes dificulta o trabalho da arbitragem: aos vinte minutos, árbitro e auxiliar erraram ao apontarem impedimento após passe de Cesc Fàbregas para Jordi Alba, que estava em posição legal. No minuto seguinte, os italianos quase abriram o placar: Cassano recebeu pelo lado direito e bateu cruzado, mandando a bola perto da trave direita.

A Itália conseguia equilibrar as ações e aumentar seu volume de jogo, igualando o percentual de posse de bola aos vinte e três minutos de partida. Aos vinte e quatro, Cassano avançaria livre em direção ao gol, mas Piqué teve a inteligência de, com um passo a frente, colocar o atacante adversário em condição de impedimento, flagrada pela arbitragem.

O futebol de Iniesta não deixa dúvidas do quão bom é esse jogador, e sua atuação foi começando a se destacar em relação a dos demais. Aos vinte e oito minutos, Iniesta passou por dois, cruzou para Xavi e Chiellini tirou de cabeça, cedendo escanteio. Após a cobrança de Xavi pelo lado direito, a bola viajou até o lado oposto e encontrou Iniesta, que pegou de primeira cheio de estilo e precisão, colocando o espetacular Gianluigi Buffon para trabalhar - o arqueiro italiano conseguiu defender no canto direito, evitando o que seria um golaço.

O jogo seguiu muito bem disputado, com Xavi, Iniesta, Cesc e Silva ditando o ritmo do meio-campo e muitas das vezes envolvendo o sistema defensivo italiano, mas com dificuldades de transpôr a última linha, notadamente pela monstruosa atuação de De Rossi. As investidas italianas ganhavam qualidade quando passavam pelos pés de Pirlo e levavam mais perigo quando chegavam aos pés de Cassano, que conseguia render bem pelos dois flancos do campo. E, nos últimos minutos, cada equipe teve uma grande chance de inaugurar o placar. Aos quarenta e três, Iniesta foi acionado por Xavi e não precisou de mais do que dois toques na bola para encobrir o goleiro Buffon, mas acabou encobrindo também o travessão e mandando para fora. Aos quarenta e cinco, um erro de marcação da defesa espanhola conciliado com um cruzamento certeiro de Cassano deu ao brasileiro naturalizado italiano Thiago Motta uma ótima chance de marcar de cabeça, mas Casillas espalmou para salvar a Espanha.

Veio o intervalo de jogo e ambas as seleções retornaram com as mesmas formações. E a Espanha começou melhor o segundo tempo. Aos quatro minutos, uma baita jogada de Iniesta terminou com chute de Cesc de fora da área e defesa de Buffon, que espalmou no canto direito. Ainda aos quatro minutos quem tratou de chutar de fora da área foi Xavi, que mandou à direita. A pressão espanhola era intensa: no minuto seguinte, Cesc passou para Iniesta na esquerda e de lá mesmo, acompanhado de perto pela implacável marcação de De Rossi, saiu um chute cruzado, desviado nos dedos de Buffon para escanteio.

Envolvente lá na frente, a Espanha acabou levando um susto na defesa aos oito minutos, quando Sergio Ramos presenteou Balotelli, o polêmico atacante avançou em ritmo lento e acabou permitindo a recuperação de Ramos no lance, que conseguiu fazer o desarme e se redimir. No minuto seguinte, Cassano avançou pela esquerda e chutou por cima.

Aquele desperdício anterior de Balotelli parece ter desagradado Prandelli, que decidiu colocar o experiente Di Natale em seu lugar, concretizando a substituição aos onze minutos. Com doze minutos, a informação dada era de que a posse de bola espanhola estava em 58%, com 403 passes completados diante de 233 italianos. Estatísticas à parte, a Itália conseguiu contra-atacar e abrir o placar aos catorze minutos: Pirlo carregou no comando de ataque, enfiou a bola na medida para Di Natale e o atacante da Udinese mostrou oportunismo e categoria (não necessariamente nessa ordem) para colocar no canto esquerdo do goleiro Casillas. 1a0 Itália em Gdansk.

A Espanha tem algo que acho particularmente belíssimo na sua filosofia de jogo: atua de um jeito empatando, vencendo ou perdendo. De um jeito igualmente encantador. E seguiu sua busca pelo gol. Aos dezessete minutos, Iniesta chutou de fora e Buffon encaixou. Aos dezoito, empatou a partida: numa ótima troca de passes, Iniesta tocou para Silva e deste saiu um passe sensacional para Fàbregas, que concluiu com a perna esquerda quando estava de frente com Buffon. 1a1 no placar.

A Itália pareceu não reagir tão bem ao gol sofrido quanto os espanhóis o fizeram anteriormente: aos vinte minutos, isto é, dois minutos após ceder o empate, Bonucci entrou com a sola da chuteira na altura do joelho de Iniesta e recebeu um cartão amarelo que poderia - e deveria - ter sido vermelho. Quem "amarelou" foi o árbitro húngaro Viktor Kassai.

Um minuto antes da entrada violenta de Bonucci, Del Bosque e Prandelli tinham realizado cada um uma substituição em suas seleções: enquanto na Espanha Jesús Navas entrava no lugar de David Silva, na Itália Cassano dava vez para Giovinco. Isto é, deixavam o gramado dois dos melhores jogadores em campo.

Aos vinte e quatro minutos, Francesc Fàbregas abriu na direita com Navas e de lá saiu um cruzamento, desviado em Giaccherini, jogador incansável no esquema tático italiano. Três minutos depois, aos vinte e sete, Navas cruzou da direita e dessa vez a bola seguiu seu rumo sem interceptações, encontrando Alba, que emendou chute com a canhota e mandou à esquerda. Na marca de vinte e oito minutos, Del Bosque trocou Cesc Fàbregas por Fernando Torres, substituição que mudaria a cara da Espanha e também do jogo - nem melhor, nem pior, apenas com um encanto diferente.

Já no minuto seguinte ao de sua entrada em campo, Torres recebeu enfiada de bola em velocidade (Bonucci dava condição) e Buffon foi astuto para desarmar El Niño e mandar para a linha lateral, evitando a virada. Aos trinta e um, a Itália respondeu à altura: Giovinco lançou magistralmente Di Natale e o atacante desviou com uma espécie de voleio, mas sem conseguir colocar a bola na direção do gol e mandando à direita do alvo.

Torres mostrava-se participativo: aos trinta e três minutos ele arrancou, tocou para Iniesta e Chiellini parou a jogada com falta, recebendo cartão amarelo. Xavi cobrou na barreira, que parecia estar a frente dos nove metros e quinze centímetros regulamentares de distância da bola. Aos trinta e sete minutos, Torres recebeu pela direita, caregou a bola mas teve o passe interceptado por Giaccherini. Na marca de trinta e nove minutos, Torres tabelou com Navas, cortou a marcação e percebeu Buffon adiantado - com um bonito toque, o atacante encobriu o goleiro mas também o travessão, desperdiçando grande oportunidade.

A Espanha não cessava a busca pela vitória: aos quarenta e dois, Navas recebeu na direita e tratou de pegar cruzado, mandando rasteiro e parando em nova defesa de Buffon. A Itália respondeu no minuto seguinte através de Marchisio, que tabelou e chegou chutando, mas sem conseguir passar por Casillas, que segurou.

Prandelli ainda trocaria Motta por Nocerino, aos quarenta e quatro, talvez visando soltar um pouco mais o meio-campo italiano. Mas a última chance de gol foi espanhola: aos quarenta e seis, Iniesta passou para Xavi e este rolou atrás - Xabi Alonso chegou chutando com força e mandou a bola à esquerda.

Foi com um futebol nesses moldes que a Espanha conquistou a Europa em 2008 e o Mundo em 2010, conquistando troféus e corações através de uma filosofia de jogo que merece ser exaltada pelos amantes do futebol. A Itália, tetracampeã mundial, honrou suas tradições nessa partida e pareceu não se abalar com os recentes escândalos de manipulação de resultados. São duas seleções que, independentemente de onde possam chegar nesse torneio, merecem o respeito de torcedores e, sobretudo, adversários.

Extraído de Jogada De (E)feito.

Um comentário:

  1. Jogo equilibrado, e mostrou que nesta Eurocopa, os gigantes que estavam "dormindo" podem ser campeões. Como a Itália e França.

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